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Direto do baú: a relação entre os times brasileiros e o MC Hammer

A música deste single trouxe muito sucesso e dinheiro para o MC Hammer

A música deste single trouxe muito sucesso e dinheiro para o MC Hammer

A temporada do futebol profissional brasileiro se encerrou e o cenário visto pelo lado financeiro é catastrófico. Boa parte das equipes enfrentam problemas financeiras e atrasam pagamentos. A situação poderia estar pelo menos amenizado se os clubes tivessem sido menos perdulários quando tiveram mais dinheiro em mãos. É sobre isso, mas de forma mais bem humorada, que abordei a situação em uma coluna rotativa de terça-feira na Gazeta do Povo em maio deste ano. A versão original, que tem um intertítulo sobre o momento dos times paranaenses que não reproduzirei aqui por estar ultrapassado, está neste endereço aqui.

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Síndrome de MC Hammer

Publicado em 13/05/2014 | Leonardo Bonassoli

A situação financeira dos clubes brasileiros de futebol lembra muito a de um famoso rapper do começo dos anos 90 do século passado. MC Hammer, nascido Stanley Kirk Burrell, ficou famoso pelo hit U Can’t Touch This e pelas danças usando uma indefectível calça saruel.

Com o grande hit, Hammer ganhou muito dinheiro e resolveu experimentar a vida de rico. Os times brasileiros, ao negociar novos contratos de televisionamento, com o dinheiro brasileiro também forte, também resolveram viver a vida de rico.

Hammer comprou em 1991 uma mansão de US$ 30 milhões de dólares e montou uma grande equipe para cuidar de toda a manutenção. Isso chegou a consumir US$ 500 mil por mês com cerca de 200 pessoas. Os clubes começaram a contratar jogadores por valores inimagináveis, pagando salários nunca antes pagos. Leandro Damião e Alexandre Pato custaram cerca de R$ 40 milhões tanto para Santos quanto para Corinthians, não dando até o momento o retorno esperado. Pato, inclusive, foi emprestado ao São Paulo por não se adaptar ao time do Parque São Jorge.

E como isso acabou? A carreira do MC Hammer desandou, não fazendo mais nenhum hit arrasa-quarteirão que o ajudasse a sustentar o estilo de vida perdulário. Em 1996, ele tinha acumulada uma dívida de US$ 13 milhões e teve de pedir falência (a lei dos Estados Unidos, ao contrário do Brasil, permite que pessoas decretem falência). Ele lançou alguns álbuns depois disso, mas sem impacto.

Em 2014, o dinheiro do futebol brasileiro foi embora, pois a maioria dos clubes adiantou as cotas de tevê e gastou como se não houvesse amanhã. Como não o futebol não é uma ciência exata, elencos caros nem sempre vencem e pior, não dão o mesmo retorno em vendas.

As equipes, em sua maioria, tinham problemas financeiros antes do crescimento de receitas e preferiram tentar ganhar campeonatos a qualquer custo a limpar a lousa das dívidas. Agora passam com o pires na mão pedindo ajuda ao governo com parcelamento ou perdão de dívidas. U Can’t Touch This.

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Futebol mineiro dominou o Brasil em 2014. Dá bilhão?

Cruzeiro e Atlético-MH decidiram a Copa do Brasil de 2014, mas Mineirão não encheu (Gualter Naves / Vipcomm)

Cruzeiro e Atlético-MG decidiram a Copa do Brasil de 2014, mas Mineirão não encheu (Gualter Naves / Vipcomm)

O futebol mineiro está em alta neste ano e os títulos falam por si. O Cruzeiro foi bicampeão brasileiro, o Atlético-MG faturou a Copa do Brasil. Até o pequeno Tombense faturou um título, a Série D. Dos cinco títulos nacionais (A,B,C,D e Copa do Brasil), três são mineiros. Mas isso é sustentável? Dá bilhão?

Primeiro lugar é importante entender o atual momento destes três clubes. O Galo, que veio de uma Libertadores em 2013, vive financeiramente na berlinda. Caso recente foi a penhora do dinheiro da venda do meia Bernard para o Shakhtar. Segundo infográfico de Marcos Britto do Estadão, a dívida alvinegra é de R$ 438,4 milhões. A médio prazo, pode significar uma precarização do clube, principalmente se essas dívidas forem pagas um dia (enquanto não forem criados padrões financeiros para punir e disciplinar a insolvência dos clubes, os credores demorarão para ver a cor do dinheiro). Se os títulos não inverterem a curva de endividamento do clube, a apaixonada torcida poderá sofrer no futuro, ainda mais com uma estrutura cara. O time atual é uma interessante mescla de experientes e jovens emergentes, alguns saídos da boa base da Cidade do Galo, fruto da boa visão da diretoria de futebol do clube.

O Cruzeiro também tem uma dívida considerável, de quase R$ 200 milhões. O mérito da diretoria consiste num bom relacionamento com empresários e na manutenção de uma base e de um elenco numeroso e qualificado, extremamente útil no Brasileirão. Vários reservas do Cruzeiro seriam titulares na maioria dos outros times da Série A. Alguns garotos estão sendo enxertados na equipe aos poucos, o que pode significar uma queda dos custos da equipe mais para a frente. Os custos anuais da Raposa são parecidos com o do arquirrival e leva como vantagem maior arrecadação de bilheteria. Mesmo assim, o risco é o mesmo.

O Tombense é um caso particular. É um clube antigo, mas arrendado pelo empresário Eduardo Uram para registro de jogadores. As receitas da parceria começaram a financiar o profissionalismo no clube, que teve subida meteórica, sendo de uma cidade de pouco menos de 10 mil habitantes. O tamanho da cidade é um limitador para o sucesso do clube e não sabe-se até onde continuará recebendo investimentos. É um caso para se acompanhar de clube de empresário.

Os percalços destes clubes são os mesmos de todo o futebol brasileiro, o que pode significar uma futura rotatividade de forças, até pelo esgotamento da forma de que são geridos. O modelo não é sustentável. Enquanto os grandes podem ruir financeiramente se não fizerem grandes vendas para derrubar o déficit e não mantiverem a arrecadação em alta. O Tombense é refém de um mecenas, que ajuda o clube, mas, por mais que tenha parceria duradoura (15 anos), pode um dia acabar.

E a sanha por arrecadação provocou um momento triste na decisão da Copa do Brasil: nenhum dos dois jogos teve estádio tomado. Tudo fruto da falta de entendimento e da ganância das diretorias. Olhe a foto ali em cima. Viu o espaço vazio na reta do estádio? Com ingressos na casa das centenas de reais, não é qualquer um que paga, o que resultou em 39.786, bem menos que os 60 mil esperados. Os clubes arrebentaram a corda entre o preço que podem cobrar e o quanto o torcedor quer ou pode pagar, mas isto é algo para um próximo texto, pois vai render muito.

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